Após o dossiê que reuniu todas as referências, curiosidades, easter eggs e homenagens subiliminares descobertas por fãs da trilogia De Volta Para o Futuro, chegou a vez de desvendarmos segredos e até algumas dúvidas deixadas em Forrest Gump (1994).
Trata-se de um dos mais brilhantes roteiros já escritos. Como perfeitamente definiu o popular crítico americano Roger Ebert, “Forrest Gump tem a complexidade da ficção moderna, uma história rica em grandes risadas e tristes verdades”. Representou, sem qualquer sombra de dúvida, uma das mais claras linhas divisórias do cinema.
Forrest Gump, um homem que sabe melhor do que ninguém que o idiota é quem faz idiotices, vive intensamente duas conturbadas décadas: 60 e 70. Mais do que isso, ele conhece pessoalmente celebridades, autoridades e é testemunha de verdadeiros marcos na história da humanidade.
Passagens de Forrest Gump retratam com altíssima sensibilidade fatos marcantes. Algumas com tanta, mas tanta sensibilidade que a referência passa despercebida.
Vamos começar pelo início. A pena. Antes de cair no colo de Forrest Gump, ela flutua tendo, além de um esplêndido céu azul, a premiada trilha sonora de Alan Silvestri de fundo. Cena essa repetida em O Expresso Polar (2004), também dirigido por Robert Zemeckis. Na animação, um bilhete perdido lembra muito o início de Forrest Gump.
O nome de Forrest é uma homenagem ao herói da Guerra Civil Americana (1861-1865) Nathan Bedford Forrest. Segundo a mãe do protagonista, ele tem esse nome para lembrar que as pessoas fazem, as vezes, coisas sem sentido. Nathan Bedford, em 1865, fundou o Klu Klux Klan.
O livro que a mãe de Forrest lê para ele todas as noites - e o que ele leva na mala - é Curious George, de Hans e Margret Rey.
Em 1955 um jovem músico ficou hospedado na “Pensão Gump”. Forrest, ainda com o grotesco aparelho nas pernas, dançou aquele som agradável do violão. Meses depois, mais exatamente em 5 de junho de 1956, o tal hóspede se apresentava na TV como Elvis Presley. No palco do Milton Berle Show, o Rei exibiu pela primeira vez os passos aprendidos com Forrest.
Ah, e na cena anterior, quem faz a voz de Elvis é Kurt Russell.

Na cena em que os primeiros estudantes negros entram na Universidade, Forrest aparece na imagem para pegar um livro que Vivian Malone - a primeira univesitária negra - deixa cair. Essa técnica de manipulação de imagem foi muito usada no filme, colocando o personagem de Tom Hanks em dezenas de fatos.
Selecionado para a Seleção Americana, Forrest Gump foi à Casa Branca em 1963 e conheceu J.F. Kennedy. No banheiro, após Forrest tomar 15 refrigerantes, é possível observar uma foto autografada por Marilyn Monroe.
Forrest Gump se alistou no exército em 1968, em meio a Guerra do Vietnâ e logo após concluir a faculdade. No ônibus do exército ele conhece Bubba, jovem que o ensinaria tudo sobre camarão. Mais tarde, Forrest abre a Bubba Gump. Que, aliás, existe. Bubba Gump Shrimp já era uma bem sucedida marca nos Estados Unidos na época do lançamento do filme.
Segundo o agora “soldado Gump”, não é difícil servir o exército. “Basta saber fazer cama direito, estar sempre em pé e reto e responder todas as perguntas dizendo: ’sim, sargento’”.

Quando Bubba e Forrest chegam à base americana no Vietnã, surpresa: parecia que eles não haviam saído dos EUA. Engradados de Budweiser e Coca-Cola, além de uma vitrola tocando The Four Tops, resumiam como os americanos se prepararam para aquela guerra.
O tenente Dan Taylor, futuro grande amigo de Forrest, teve parentes mortos em todas as guerras com participação americana até o Vietnã: Guerra Civil (1861-1865), Revolução Americana (1775–1783), Primeira Guerra Mundial (1914–1918) e Segunda Guerra Mundial (1939–1945).
Durante a patrulha, Forrest dizia que os soldados estavam sempre procurando um cara chamado “Charlie”. Victor Charlie, ou somente VC, era a forma como os militares americanos chamavam os vietcongs.
Após salvar boa parte do pelotão, inclusive o tenente Dan Taylor, Forrest foi pela segunda vez até a Casa Branca. Dessa vez, para receber a Medalha de Honra ao Mérito do presidente Lyndon Johnson.

A cena seguinte é particularmente uma das minhas preferidas. Abordado por pacifistas, Forrest é confundido com um militar que discursaria para a multidão. Após Forrest subir ao palco e comentar o que viveu no Vietnã, surge no espelho dágua do “Monumento a George Washington” a sua amada Jenny Curran. Eles correm e se abraçam numa cena repleta de esperança e significado, para delírio da multidão.

Jenny apresenta Forrest para seus novos amigos. São integrantes do partido revolucionário Panteras Negras, grupo marxista que protestou em Washington em 1968.
Quando Jenny conta a Forrest suas “viagens” e formas como viveu em “harmonia”, ela aparece tocando violão na calçada da fama de Hollywood. E bem próximo da estrela de Jean Harlow, símbolo sexual dos anos 30.
Na cena em que Forrest Gump está sentado ao lado de John Lennon no The Dick Cavett Show, estava naquele banco, na verdade, Yoko Ono. Isso foi em 1971.
Nessa mesma cena Forrest Gump diz que “na China as pessoas não tem nada. E não tem religião”. Dick Cavett comenta “é difícil imaginar”. E Lennon responda: “é fácil se você tentar”. Ou seja, trechos da maior música de todos os tempos: Imagine. Depois de Elvis, Forrest inspirava John Lennon.

Em 1974 Forrest vai, pela terceira e última vez, à Casa Branca. O presidente daz vez era Richard Nixon, que homenageou à equipe de pingue-pongue americana.
Do quarto de hotel onde está hospedado, Forrest liga para a recepção e diz que alguém com lanternas estava procurando “fusíveis ou coisa assim” no prédio da frente. Ao desligar o telefone, aparece o nome do hotel onde está Forrest: Watergate. Tratava-se do assalto que motivou a renúncia do presidente americano Richard Nixon. Somente em 2005 o autor da denúncia foi reconhecido. Durante anos ele ficou conhecido como Garganta Profunda.
O Furacão Carmen que destruiu todos os barcos pesqueiros - menos o de Forrest - realmente aconteceu. Em 29 de setembro de 1974 ventos de 130 km/h atingiram fortemente a Louisiana.
Enquanto cuidava da administração da Bubba Gump Shrimp, Dan decidiu investir em outro negócio. Forrest disse que se tratava de algo com frutas. Na verdade, era a Apple Computers.

Há uma série de curiosidades durante a corrida de Forrest pelo país. Não é definida quantas vezes ele vai de costa a costa, mas, segundo meus cálculos, foram 4 idas e vindas. Ou seja, ele teria percorrido algo em torno e 17.000 km.
O real inventor da frase “shit happens” (merdas acontecem) é desconhecido. Mas, segundo o filme, após pisar em um monte de merda, Forrest diz: “acontece”. O cara que havia pedido ajuda para uma frase fica admirado com a idéia. E, no pouco depois, rico com seus populares adesivos “shit happens”.
O inventor do smile é o americano Harvey Ross Ball. No filme, mas uma vez Forrest tem influência nesse símbolo pop. Ele limpa o rosto com uma camiseta amarela, formando assim o

A cena em que Jenny conta a Forrest que tem um filho com ele é absolutamente significativa. Pois, a reação de Forrest é de medo. Ele pergunta se o garoto “é igual ele”. Ou seja, somente quase no final do filme que temos a revelação: Forrest sabia que tinha um problema mental.
O garotinho que faz Forrest Jr. é o ator Haley Joel Osment (Sexto Sentido, I.A.).
O livro que Forrest Jr. leva para a escola é o mesmo que a mãe de Forrest lia para o filho: Curious George.

Ao ser aberto, aquela pena que Forrest havia guardado no começo do filme cai. E o filme acaba. Com a mesma simplicidade de sua introdução e doce como uma caixa de chocolates. ![]()
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¹ Forrest Gump ganhou 6 Oscars: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Tom Hanks), Melhor Roteiro Adaptado, Melhores Efeitos Especiais e Melhor Montagem. Além disto, foi indicado em outras 7 categorias: Melhor Ator Coadjuvante (Gary Sinise), Melhor Fotografia, Melhores Efeitos Sonoros, Melhor Trilha Sonora, Melhor Maquiagem, Melhor Direção de Arte e Melhor Som.
² Ganhou 3 Globos de Ouro: Melhor Filme em Drama, Melhor Diretor e Melhor Ator em Drama (Tom Hanks), além de ter sido indicado em outras quatro categorias: Melhor Trilha Sonora, Melhor Ator Coadjuvante (Gary Sinise), Melhor Atriz Coadjuvante (Robin Wright) e Melhor Roteiro.
³ Sou obrigado a citar a visita ilustre que o QMaT teve essa semana. Wandeko Pipóka, o Bozo deixou um comentário na sua entrevista feita pelo Daniel. Muito obrigado, Wandeko
Fred Fagundes


































