Sexta-feira, 1 de Agosto de 2008.

Na semana onde comemoramos o primeiro título sul-americano de um clube gaúcho, voltei a refletir sobre a arte de ser zagueiro. O requisito básico, pode ter certeza, é ser feio. Observe os grandes zagueiros. Eram todos feios, muito feios. Atílio Genaro Ancheta talvez seja uma excessão, mas o que dizer de Hugo De Léon? De León é o símbolo máximos dos defensores. Barbudo, desengonçado, grosso e violento. Isso que é zagueiro. Não sabe nem ler o De Léon, até hoje.

Sabe quem também jogou muito na zaga? O Alicate. Não manja o Alicate, né? Pois eu vou dizer quem foi Alicate. Alicate foi o maior jogador que já passou pelos campos de várzea do Brasil. Carioca, foi injustiçado e nunca aceito nos times fluminenses. Um jogador que certamente seria ídolo no Rio Grande do Sul, região onde, no seu campeonato estadual, do pescoço para baixo tudo é canela. Jogo de homem é o futebol de lá, de homem.

Alicate tinha as pernas tortas, por isso a alcunha. Sempre preferiu o Rivarolla, achava o Gamarra muito metrosexual. Alicate não sorria. Nunca. Tinha um chute forte tratado como arma mortífera do nosso time. Quando a coisa estava feia, Alicate se mandava para o ataque. Ficava de costas para o gol como se fosse fazer o pivô, mas não tocava a bola. Apenas virava o corpo e soltava uma chicotada. “Ziiiiiiiiiu” fazia a esfera, colocando adversário, goleiro, juiz, tudo pra dentro do gol.

Alicate era zagueiro.

Num sábado qualquer, após nova vitória sobre o Uirapuru, realizávamos nosso tradicional ritual de comemoração no boteco da Beti. Tudo parecia normal até o relógio acusar a meia noite. Surge no respeitoso estabelecimento uma jovem. Mas não engane-se, não é uma jovem qualquer. É um jovem, baixa e de seios grandes. E você sabe como são as jovens baixas e de seio grandes: nefastas.

O que mais surpreendeu foi a atitude da jovem, baixa e de seios grandes. Os olhos dela miravam Alicate. Ela o desejava loucamente. Volta e meia ela olhava, sorria, olhava de novo, bebia e, no final, sempre sorria. Alicate viu. Eu vi. O Daniel Soares viu. Aquela era a noite do zagueiro.

Lembando que Alicate, pé frio em relacionamentos, nunca se deu bem com as mulheres. Normalmente era o Buricá, nosso meia esquerda, que tinha as melhores chances. Em campo nos colocava na cara do gol, fora dele matinha um excelente aproveitamento dentro da área. Alicate, não. Tanto que tal situação criou expectativa no time, pois viviamos uma novidade.

O zagueiro, no melhor estilo zagueiro, não quis perder a chance. Pensou como um matador. Um centroavante. Foi em direção à moça sem tropeçar e distribuindo cotoveladas em quem estivesse no seu caminho. Não houve tempo para cantadas, drinks ou coisas do tipo. Pegou-a pelo braço e disse:

- “Hoje tu és minha”.

Poucos minutos depois os dois já caminhavam, de mãos dadas, até a saída. A atmosfera do ambiente acusava o início de uma longa noite. No bar, festejávamos a vitória do time e brindávamos pela felicidade de Alicate. No carro, o zagueiro via que a festa estava apenas começando. No quarto de um motel vagabundo de BR, ela se fez.

Logo ao entrarem, a jovem, baixa e de seios grandes, tal como uma jovem, baixa e de seios grandes, atacou Alicate. Ele, meio assustado, não se fez de lateral direito (laterais direitos são péssimo com mulheres) e foi entrando no ritmo. Rapidamente já se via despido na cama com a nefasta jovem, baixa, de seios grandes e, agora, finalmente despidos.

Enquanto os dois já copulavam numa velocidade e intensidade frenética, Alicate foi absolutamente surpreendido. Num breve momento de insanidade sexual, inspirada pelo momentos e contrariando todas as leis do amor, da física, da robótica, da astronáutica, da matemática, da retórica e da gramática, a jovem, baixa e de seios grandes despidos disse:

- “Me xinga!”

E disse de novo. Silabicamente e em caixa alta:

- “ME XIN-GA!”

Alicate não sabia o que fazer. Não esperava aquela situação, não tinha ouvido falar de mulheres que gostavam de ser xingadas. Quem gostava de ser xingado? Como xingar alguém assim, do nada? Poxa, ele gostava dela. E não entendia dessas coisas. Era um cara tradicional, nem de preliminares ou camisinhas de hortelã curtia.

Quando a jovem, baixa e de seios grandes e despidos já perdia a paciência e gritava aos socos “me xinga, me xinga, me xinga”, Alicate, com a serenidade de um auxiliar técnico e inocência de um quarto árbitro, enfim, xingou:

- “Sua gorda!”

A respiração diminuiu. O nheco-nheco da cama parou. Agora, os únicos gemidos eram do filme vagabundo que passava na TV. A jovem, baixa e de seios grandes e despidos levantou-se, vestiu-se e, antes de chamar um taxi, simplesmente disse:

- “Seu zagueiro”.

Eis o problema de Alicate. Ele era zagueiro. Nunca será um amante. Nunca será um, tipo, meia esquerda.

Nunca será.

¹ Essa crônica foi postada originalmente no Xpock. Após uma breve tangerinada, é a vez de aparecer no QMaT.

² Agradeço meu camarada Luiz pela camiseta enviada. Valeu, bizonhento.

³ Uma luz para os blogueiros sedentários.

Fred Fagundes

Quarta-feira, 30 de Julho de 2008.

Nem só de coisas “legais” vivemos na década de 90. Momentos tristes e melancólicos ocorridos entraram, infelizmente, para os anais da TV brasileira. Por isso, fazemos hoje uma alteração extraordinária no título da série que vem listando os destaques da década passada. Relembramos a partir de agora, queiram ou não, os momentos mais marcantes da TV brasileira nos anos 90.

Inventar um assassinato nos últimos capítulos da novela costuma ser uma boa jogada. Você mata um personagem importante, enche a trama de suspeitos e pronto. É certeza de pico de audiência na última sexta-feira da trama. Agora, fazer isso desde a estréia - e bem - é para poucos. Ou para Silvio de Abreu.

Durante 203 capítulos, A Próxima Vítima foi tema de discussão em todos os cantos do país. Só se falava na novela e nos possíveis assassinos. O roteiro, muito bem desenhado, primava pela dúvida. O suspense não estava somente em descobrir quem era o assassino, mas também em quem seria “a próxima vítima”.

Com uma média geral de 52 pontos e pico de 70(!) no seu último capítulo, A Próxima Vítima foi também um grande sucesso em países como Portugal e Rússia. A cena do capítulo final - e a revelação do assassino - você assiste logo abaixo.

Observe que o José Wilker era homem. Disso eu não lembrava.

Independente de sua religião ou crença, foi impossível não ficar chocado com aquela cena. Sérgio Von Helder, pastor da Igreja Universal, chutava e socava uma imagem de Nossa Senhora Aparecida durante um programa da TV Record. Ele acusava a Igreja Católica de mercenária, por cobrar algo em torno de R$ 500 pela santa. Não pegou bem.

A atitude revoltou milhares de católicos e, principalmente, evangélicos. Afinal, a discriminação, que já era grande, tinha tudo para aumentar devido a atitude irresponsável do pastor. E foi justamente o que aconteceu. Até hoje o fato é lembrado como um símbolo de intolerância.

Nove anos depois, um boato sobre a conversão do bispo gerou polêmica. A estória foi desmentida após uma reportagem da Istoé revelando que Von Helder trabalha no escritório da Universal, em Nova York, seguindo ordens de Edir Macedo.

Update: o Youtube retirou o vídeo do ar.

Desde a morte de Tancredo Neves, em 1985, o Brasil não via uma comoção daquele tamanho. A queda do avião que levava os Mamonas Assassinas, em dois de março de 1996, foi o mais trágico e assustador acidente da decada de 90. Ídolos nacionais, o jovens deixaram um dos discos mais vendidos na história do mercado fonográfico brasileiro. E uma legião enorme de fãs.

As cenas exibidas dois dias após o acidente, com então exclusividade na TV Globo, foram emocionantes. Os integrantes do grupo brincam com um suposto defeito no avião. Ironicamente, o tecladista Julio Rasec diz que o avião vai cair. Tudo isso seguido de um depoimento primoroso do jornalista Arnaldo Jabor.

Foi de arrepiar.

A história de Fernando de Collor de Mello não é das mais puras. Desde seus aliados até suas armações, há dezenas de fatos, teorias e, principalmente, provas de corrupção e atitudes suspeitas. O pedido de abertura do histórico processo de impeachment foi aprovado em 29 de setembro por 441 votos a favor. Somente 38 votaram contra.

A votação foi transmitida por grande parte dos meios de comunicação, já que todos (inclusive a Rede Globo) haviam abandonado definitivamente Collor. Cada voto positivo merecia vibração só comparável com as da Copa do Mundo. Parecia a reação de um gol. Um título.

E era.

Vou “suitar” o primeiro post da série.

Para os que nasceram na metada dos anos 80, a Copa do Mundo nos Estados Unidos foi a primeira. Poucos lembravam de 1990 - felizmente. Vivi intensamente os meses de junho e julho de 1994 e digo com autoridade: assisti todos as partidas daquele mundial. Eu começava a ficar doente por futebol graças a Copa. Graças a Deus.

O dia que mais me marcou foi a véspera da final. Em Los Angeles, os três tenores - Plácido Domingo e José Carreras e Luciano Pavarotti - fizeram uma apresentação. Na sala de casa, com meu pai, dormi assistindo o show na impecável imagem da TV, fruto de horas de esforço do velho, espetos de churrasco e esponja de aço na antena. Tudo para no outro dia, após o tradicional almoço de domingo, a família inteira pudesse ver a final.

Porém, o realmente inesquecível foi a decisão por pênaltis. O socos no ar de Dunga, a defesa do Taffarel, a gravata torta de um esguelado Galvão Bueno…

Que dia.

O bate boca do então candidato à Presidência da República Oreste Quecia com o jornalista Rui Xavier, da Folha de S. Paulo, foi umas das coisas mais surreais e engraçadas envolvendo política nos anos 90. Aconteceu no programa Roda Viva, da TV Cultura, durante uma série de entrevistas com os candidatos. Foi lindo.

E o saldo final: caluniador (16 vezes); Mentiroso (15 vezes); Mentira (11 vezes); Safado (10 vezes); Canalha (9 vezes) e Malandro (7 vezes).

GP de Imola. 1994. Sétima volta. Tamburello.

Sem mais.

Conheça as outras edições da série As 7 coisas mais legais dos anos 90: propagandas; infância; games, brinquedos e séries.

Fred Fagundes

Terça-feira, 29 de Julho de 2008.

Após o grande boom ocorrido em 2006, estamos atravessando por uma notável renovação na já envelhecida blogosfera brasileira. Os responsáveis por esse fenômeno estão distantes do 1milhão de acessos/mês, posts patrocinados ou convites para festinhas de agências. São os blogs nanicos. Blogs que sabem usar como ninguém o corporativismo, uma das maiores virtudes do meio.

Mas o que difere um blog grande de um blog pequeno?

A fidelidade de leitores. Hoje é, não impossível, mas muito difícil um blog sair do 0 e alcançar 60mil acessos/dia no período de um ano. O motivo aparente é o excesso de informação contida na Internet. A cada dia são criados 175 mil novos blogs, segundo o Technorati, um dos mais confiáveis indexadores de diários virtuais. É blog pra dedéu.

Além disso, outro fator evita o crescimento e desmotiva muito blogueiro iniciante: panelinhas. Se preferir, termos como puxação de saco e babação de ovo podem ser utilizados. Os grupinhos que hoje reinam na blogosfera evitam não somente parcerias com quem é de fora, mas simples palavras de apoio à quem está começando. Salvo raras exceções, saiu de cena o blogueiro, entrou a estrela.

Dia desses uma publicitária me procurou. Pediu o contato de 10 bons blogs para uma ação. Ela não precisava pedir, é uma profissional bastante conhecida entre os blogueiros. Questionei porque havia pedido, se estava muito ocupada ou coisa assim. Disse que não estava ocupada, mas já havia esgotado sua cota de paciência com o ego inflado dos blogueiros.

Surge a umbigosfera. Acredite, a estrela já foi um anônimo. Ele já implorou parcerias e links. Ele já abriu a caixa de e-mails torcendo para uma proposta de anúncio. Mas hoje, infelizmente, alguns blogueiros consideram-se os donos da Internet. “Não preciso ser simpático, as agência vão me procurar, afinal, elas precisam da minha audiência”. Há blogueiro com esse pensamento.

Soberba dos grandes. Os nanicos sofriam.

Não há um registro oficial, mas dizem que no final de 2007 o Duquian abriu uma janela do MSN e começou a adicionar todos os blogueiros. Batizaram aquela atitude de Blogzona. Volta e meia a conferência se repetia, quase sempre aos domingo. Tempos depois, já em 2008, Dorly Neto criou o BlogZona, uma janela fixa de MSN que mantém os blogueiros sempre adicionados.

Alguns blogueiros mais populares, também adicionados no serviço, dificilmente aparecem para comentar, dar sugestões ou apenas trocar idéias com os outros blogueiros. Assim, a BlogZona criada por Dorly acabou virando uma interessantíssima rede social de blogs nanicos. Lá são discutidos, desde temas e ferramentas, até soluções para a paz no oriente médio. E o melhor: sem qualquer ataque de estrelismo.

“Eu notei que muitos blogs aumentaram suas visitas depois BlogZona. Acho que é a troca de informações que ela [BlogZona] proporciona. Além que os blogueiros passaram a se conhecer melhor e a ver que a blogosfera é feita de pessoas”, diz Holy Sepulchre, criador do ManicomioSA e um dos participantes mais ativos da BlogZona. Segundo ele, “os blogs pequenos estão se unindo cada vez mais e crescendo juntos”.

Outro blogueiro que relata a importância da BlogZona é Diego Dias, do FesterBlog. Para ele, a relação entre os blogueiros pequenos mudou muito. “a união dos blogs menores é evidente. Antes era cada um por si. Cada um querendo ser melhor que o outro. A BlogZona melhorou bastante a relação, existindo inclusive um maior respeito entre os blogueiros”, ponderou.

Motivados pela BlogZona, Holy e Volkmer criaram uma barra de links. Doze blogs adicionaram essa barra no topo do layout. Não chega a ser um condomínio de blogs e não há divisão de receita. É somente uma forma de divulgar o parceiro. Ou seja, parceria no melhor sentido da palavra.

Não há medo de linkar, como há entre os grandes blogs. Usura, se preferir. Ninguém liga o computador para ler um ou dois blogs. Não é porque alguém achou um blog levemente melhor que o seu que ele vai deixar de  ler sua página. Afinal, a dica foi sua. O leitor vai procurar outras dicas. E ele vai saber, sempre, onde procurar.

Vou ser sincero, o motivo disso tudo é fazer com que alguns blogueiro revejam suas ideologias. Vocês que trabalham em agências, por exemplo. Vocês devem saber melhor que eu. Os clientes estão cada vez mais preocupados com o conteúdo do blog, não só com a visibilidade. Além da qualidade dos comentários. Portanto, um link ou uma palavra qualquer de apoio ao blogueiro iniciante não vai doer.

Os nanicos estão cada vez maiores. E, principalmente, dando uma aula de corporativismo para os grandes blogs. Aliás, se você, magnamio blogueiro, quiser aprender, basta procurar um desses blogs.

Acredite. Você será muito bem tratado.

¹ Contribuiram nesse post, além do Holy e do Diego, Thiago Loch e Gustavo.

Fred Fagundes

Segunda-feira, 28 de Julho de 2008.

O gremista é o único torcedor da América do Sul capaz de gostar mais da Taça Libertadores do que o Mundial Interclubes. Essa competição, especialmente a de 1983, transformou o Grêmio no símbolo maior de futebol força, raça e valentia. O tricolor gaúcho tornou-se um verdadeiro “cântico à bravura e ao poder do coletivo sobre firulas individualistas. O clube da essência de mal traçadas linhas“.

As palavras sempre tão bem utilizadas pelo escitor Eduardo Bueno são as que mais se aproximam de uma aparente tradução lógica da relação gremista com a Taça Libertadores.

Parabéns, nação tricolor. Parabéns, Grêmio. O Grêmio de Mazarópi, Paulo Roberto, Baidek, De León e Casemiro. China, Osvaldo e Tita. Renato, Caio (César) e Tarciso. Grêmio de Valdir Espinosa e Felipão. Grêmio de Fábio Koff e Cacalo.

Grêmio da Azenha, da Carlos Barbosa, da Cascatinha e do Largo dos Campeões. Grêmio de Dinho, Emerson e todos os volantes. Grêmio de Catimba e da catimba. Grêmio de Alcindo, Tarciso e Jardel. Grêmio de De León, Rivarolla e Arce.

Grêmio dos grandes jogos perdidos, do sofrimento e do gol no último minuto. Grêmio da Batalha de La Plata, da Batalha dos Aflitos e do Inacreditável.

Grêmio copeiro, carrasco e de carrinhos. Grêmio da Geral, da avalanche e do alento.

Grêmio Futebol Porto-Alegrense. Futebol de verdade.

Porque futebol-arte, você sabe, é coisa de fresco.

¹ Eduardo Bueno é jornalista, escritor, historiador e levemente gremista.

² Absolutamente imperdível o especial Planeta Azul da Zero Hora.com.

³ O site oficial do Grêmio transmite hoje, ao vivo, a festa do título direto de Porto Alegre.

Fred Fagundes

Quinta-feira, 24 de Julho de 2008.

A feia. A recatada. A moça que se veste como se vivesse num país comunista imaginado por americanos em 1967. Toda cidade tem a sua. Em Passadeiro, interior da Bahia, ela atendia por Cecília. Apesar do nome, digamos, sensual, Cecília era tão excitante quanto uma, digamos, pia de banheiro.

Magra, alta e desengonçada, Cecília passava maior parte do dia no trabalho. Era radialista, tinha uma voz aveludada, leve, doce e serena como os primeiros raios de sol. Apresentava o jornal da manhã e do final de tarde na única emissora de Passadeiro. Seu sonho era trabalhar na TV, mas era feia, muito feia. E pessoas feias ou trabalham em rádios ou viram pro-bloggers.

Havia tentado também um emprego de assessora de imprensa do Atlético, time amador de Passadeiro. Desistiu minutos antes da entrevista. Ao chegar no clube, viu que um grupo de jogadores imitava o seu modo estranho de caminhar. E riam. Riam e olhavam com menosprezo para Cecília. Ela odiava isso.

Mas não era a primeira vez. Cecília foi motivo de chacota desde o ensino fundamental. Nunca mudou seu estilo, parecia usar a mesma armação de óculos a vida inteira. E as roupas, bem, as roupas eram costuradas por ela mesmo. Saias longas, muito longas e blusas com botões enormes e repletas de babados. Provavelmente usava também uma enorme calcinha bége. Era de arrepiar. Era uma vasectomia ambulante.

Cecília não namorava. Não tinha amigos. Um desastre de vida, um desastre.

Cansada da mesmice e do nada, Cecília decidiu procurar uma vida nova em Salvador. Cidade grande, muitas oportunidades e muitas pessoas. Não perderiam tempo reparando e falando mal de seu estilo, como era em Passadeiro. Tinha 20 anos, os novos 10. Queria estudar, aprender, conhecer pessoas, lugares, ouvir sons, ver filmes, adquirir uma cultura que nunca teria conhecimento no interior.

Graças ao trabalho na rádio, conseguiu estágio numa revista de entretenimento. Demorou poucos meses até ser convidada para a reportagem. Durante três anos foi reporter de TV e música. Estudou, aprendeu, conheceu pessoas, lugares, ouviu sons, viu filmes e adquiriu aquilo tudo que queria e foi citado no final do parágrafo anterior.

Tirou férias. A segunda, na primeira, no ano interior, ela fez um tour por 13 paises da Europa. Dessa vez, queria algo mais tranquilo. Decidiu visitar Passadeiro. Estava com saudades da família, só, pois nada o prenderia naquele muquifo. Passaria lá o mês de março inteiro. Março, inclusive, que é o mês em que ocorre a Copa Berimbau, competição tradicional que reunia os menores times do interior baiano.

As coisas começavam a ter um sentido.

“Como ela mudou assim, de ontem pra hoje”? O questionamento da população passadense mostrava como Cecília era ignorada no município. Mesmo três anos morando longe, era de desconhecimento geral que ela havia deixado Passadeiro. As mulheres, que até ontem eram belas, hoje não passam de bonitinhas. Cecília elevou o padrão de beleza de Passadeiro. Sua chegada foi triunfal, ah, foi.

Chegou dirigindo um conversivel vermelho. Ao deixar o carro, benzadeus. Perna, perna, perna, perna, a perna da mulher não acabava. Finalmente, Cecília. Linda. Fogosa. Balançou os cabelos louros em câmera lenta. O único semáforo de Passadeira deu tilt, alarmes de carros dispararam e sorvetes num raio de 20 metros derreteram.

A notícia de sua volta chegou até a concentração do Atlético, que se preparava para a estréia na Copa Berimbau. Aliás, um baita time o daquele ano. Campeão invicto da terceirona do estadual, era o melhor plantel dos últimos 10 anos e o favorito ao título

O atacante Nenéca lembrou que foi vizinho de Cecília e sabia onde a família dela morava. Aguçado pela sua curiosidade, pulou o muro da concentração e foi até a residência. Chegando lá, encontrou o portão encostado. Entrou. Três passos depois, uma janela aberta. Ao aproximar-se, viu Cecília. Ela estava deitada no sofá de lingerie vermelha e um cigarro entre os dedos médio e anelar.

- “Eu esperava um de vocês”, disse, antes de tragar. “Entra”, completou.

Nenéca e Cecília fizeram sexo durante uma noite inteira. O jogador só voltou, exausto, na manhã seguinte para a concentração. Dormiu até pouco antes do jogo. Sentia-se recuperado. No caminho até o estádio revelou as últimas paralavras de Cecília: “conta pros teus amigos. Eu vou esperar eles”. Jurou, Nenéca. Jurou que ela disse aquilo.

“Ela é uma santa, é uma santa”, vibravam os atletas.

A partida começou no horário previsto. Nenéca, atacante, era a maior esperança de gols do Atlético. Havia mostrado um bom trabalho e desempenho nos treinos. E ainda estava, mais do que nunca, animadíssimo. A primeira bola recebida por Neneca foi aos 3 minutos. Ele tentou um drible, pisou na bola, e caiu de bunda. Lance ridículo. Mais ridículo seria o seguinte, quando ele chutou o chão e quase se lesionou.

Nenéca estava irreconhecível. Foi substituído pouco antes do final do primeiro tempo. Perdeu a vaga no time. Nunca mais foi titular. Nunca mais fez um gol.

A cerimônia se repetiu na véspera da partida seguinte. O jogador da vez era o Flávio Bicudo, béque tipo becão mesmo. Anotou o endereço da felicidade e foi-se, todo faceiro. A situação era a mesma relatada por Nenéca. Portão encostado e uma janela aberta. Dentro da casa, Cecília o esperava apenas com o perfume em seu corpo. Noite feliz, noite feliz…

Bicudo era capitão daquele time. Era popular por sua sorte, jamais havia perdido um cara e coroa, jamais. No dia seguinte, já no jogo, a moeda arremessado com o dedão pelo árbitro subiu, o sol atrapalhou a visão de Bicudo e caiu no olho do jogador. Acabou substituído antes do apito inicial. Fez uma cirurgia, mesmo assim perdeu parte da visão. Deixou o futebol. A sorte, enfim, o abandonaria.

Uns seis dias depois foi a vez do Pepeu, meia direita. Foi para a cama com Cecília, aquela loucura. No dia do jogo torceu o tornozelo saindo do vestiário. Benfica, o goleiro de quase dois metros. Chegou na concentração fumando um cigarrinho. No jogo, deu com a cabeça na trave e sofreu traumatismo craniano.

A coincidência começava a levantar suspeitas. Todo jogador que dormia com Cecília sofria, de uma forma ou outra, dentro de campo. Alguns não superticiosos discordavam. O Greco, por exemplo. Era banco, nunca entrava. O time preferia jogar com 10 do que escalá-lo. Decidiu passar a noite com Cecília. Passou. Na tarde seguinte, um raio caiu no banco de reservas e levou Greco ao coma. Somente ele, os outros nada sofreram.

O recado, enfim, era compreendido. Cecília tinha uma maldição entre as pernas. Vingança, isso que ela desejava, isso que a fez voltar para Passadeiro. As mulheres são assim. Para elas, não basta ser a melhor. A honra e orgulho recuperados de um passado negro podem ser mais relevantes que um presente digno. Cecília adorava isso. Ela se vingou dos que à ofenderam um dia, um por um.

E os jogadores aprenderam. De nada adianta ter talento. Não só no futebol, mas é imprescindível ter humildade. É imprescindível saber respeitar as mulheres.

Principalmente se ela for uma bruxa.

Fred Fagundes

  • Já fui office boy, operador de CPD, diagramador de jornal e estagiário em emissora de TV. Na faculdade fiz um documentário, dois zines e professores chorarem. Considero futebol cultura. E De León melhor que Figueroa. Maragato, 22 anos e um poço de sinceridade.