Quarta-feira, 6 de Agosto de 2008.

Segundo a MTV, riff de guitarra é sequência de notas e/ou acordes que serve como base e determina o formato sonoro das canções. As vezes é usado como ponto de identificação da música. Já o solo, esse sim bem mais popular, é o momento onde o músico apresenta-se destacando seu instrumento. Solo vem do italiano, sozinho.

Pois bem, embalados pela centenas de listas que pipocam diariamente na blogosfera, eu e Dorly Neto (músico e blogueiro nas horas vagas) decidimos criar polêmica com um tema históricamente difícil de ser tratado: os melhores na música. Isso jamais foi simples. Mas, como disse certa vez, que graça teriam as listas se não fosse para serem discutidas?

Antes, duas considerações: a sequencia de músicas é aleatória. E outra: não sou músico. Desafino até tocando campainha. O critério de escolha foi o mesmo usado no CR: a sem vergonha da minha opinião. Para completar, reproduzo um trecho do post de Felipe Neto: “Seja na caixa de comentários ou no seu blog, façam seus próprios ranks, não guiem-se pelos outros”.

Rock And Roll, modafoca.

Black Sabbath - Heaven and Hell
Disco: Heaven and Hell
Ano: 1979

Surge na época do tão aclamado New Wave Of British Heavy Metal. Hino dos fãs de Black Sabbath.


AC/DC - Thunderstruck

Disco: The Razors Edge
Ano: 1990

Um dos mais violentos e emocionantes riffs da música. Autoria do gênio Angus Young’s.


Led Zeppelin - Heartbreaker

Disco: Led Zeppelin II
Ano: 1969

Memorável momento de Jimmy Page. Segundo a revista Guitar World, o 16º maior riff de todos os tempos.


Beatles - Helter Skelter
Disco: White Album
Ano: 1968

Para muitos é o primeiro heavy metal. Ringo Starr, no final da canção, grita raivosamente: “I’ve got blisters on my fingers!” (estou com bolhas nos meus dedos). É como se esta frase fosse o empurrãozinho final para que outras bandas começassem a criar um som mais pesado.


Rainbow - Kill the King

Disco: On Stage
Ano:
1977

Ritchie Blackmore consegue colocar todo seu virtuosismo em apenas uma música. Em Kill the King você pode sentir todos os elementos essenciais em um rock de verdade: feeling, agressividade e criatividade.


Jimi Hendrix - Voodoo Chile

Disco: Electric Ladyland
Ano: 1968

A guitarra inimitável de Jimi Hendrix numa harmonia fantástica. Som perfeitamente desafinado e alinhado com tudo o que envolvia o final dos anos 60. Até hoje é figurinha carimbada em comerciais e filmes sobre aquela década.


Mötley Crüe - Wild Side

Album: Girls, Girls, Girls
Ano: 1987

Sexo, drogas e rock’n'roll. Essa fórmula alcançou seu clímax na década de 80 com o crescimento do Hard Rock e do Glam Metal. Umas das bandas mais influentes da época são os garotos de Los Angeles, o Mötley Crüe. Nas letras, destaque para as noitadas, excesso de drogas e muitas mulheres.


Deep Purple - Lazy
Disco: Machine Head
Ano: 1972

Juntamente com Ian Paice, Ian Gillan, Roger Glover e Jon Lord, Ritchie Blackmore criou o precioso Machine Head de 1972. Destaque para a música Lazy, com sua batida jazz.


Ain’t Talkin Bout Love - Van Halen

Disco: Live
Ano: 1978

Um dos melhores riffs de Eddie Van Halen. Repleto de agressividade e com uma melodia facilmente contagiante.


Eric Clapton - Layla

Disco: Layla and Other Assorted Love Songs
Ano:1970

Além de uma história fantástica, Layla é sem dúvida uma das obras primas de Eric Clapton. Merece estar em todas as listas.

Publique-se,  cumpra-se e registre-se. É a nossa lista.

Por favor, discordem.

¹ Conheça mais o trabalho do Dorly visitando o Capetalismo.

² O Ian Black prometeu um eclipse. Eu não duvidaria do Ian Black.

³ Queremos saber: quanto custa um título de campeão brasileiro de futebol?

Fred Fagundes

Terça-feira, 5 de Agosto de 2008.

Há poucos dias do início da maior celebração do esporte mudial, somos viemente bombardeados por uma enxurrada de informações, curiosidades e fatos corridos na sede da maioria das competições, Pequim. Se por um lado os Jogos Olímpicos cumprem seu papel derrubando qualquer estereótipo capcioso que tínhamos sobre o oriente, por outro somos obrigados a ouvir as mesmas ladainhas de oportunistas e autoridades.

Qual o conceito de “espírito olímpico”? Se existe um, trata-se de participar. Ser leal. Ser justo. Vivenciar a honra e orgulho de representar a nação frente ao mundo. O verdadeiro atleta olímpico vai aos Jogos pela participação. Claro, evidente que todos querem o ouro, o título de melhor. Mas participar de uma celebração dessas, desfilar na abertura, passar 20 dias na Vila Olímpica, conhecer outros atletas, trocas experiências, tudo isso faz parte da mística que envolve os Jogos.

Wlamir Marques, ex-jogador da seleção brasileira de basquete, tem uma história interessante sobre sua participação nos Jogos Olímpicos. No Jogos de 1964, no Japão, Wlamir foi o responsável por carregar a bandeira brasileira durante o desfile das delegações na cerimônia de abertura.

No ensaio, Wlamir observou que atletas de outras nações curvavam suas bandeiras ao passarem por autoridades japonesas. Em dúvida, questionou o chefe da delegação nacional, tenente-coronel Paulo Meireles, se devia fazer o mesmo. A resposta que o jogador recebeu foi primorosa:

- “A bandeira brasileirão não se curva à ninguém”.

Assim, contrariando todos os outros atletas e o protocolo, Wlamir foi o único atleta a cruzar todo o estádio com a bandeira o tempo todo em riste.

A minha função, espero eu, é não deixar você se enganar. Principalmente o jovem quem vai acompanhar os Jogos Olímpicos pela primeira vez. Passada a euforia do Pan do Rio de Janeiro, onde o Brasil conquistou 161 medalhas, sendo 54 de ouro, chegou a hora de encararmos a primeira divisão do esporte. De igual para igual, claro, com o sentimento indispensável de competição. Porém, com o amargo peso de país de terceiro mundo.

Nossos atletas do atletismo, por exemplo. Aguardam ainda hoje uma profissionalização prometida em 1952, quando o grande Ademar Ferreira da Silva ganhou a medalha de ouro e criou a volta olímpica. Meio século passado, não temos um plano de incentivo ao esporte que possa fazer frente a países menores como Cuba e Jamaica.

Com isso, grande parte dos atletas divide o tempo entre trabalho e treinos, sendo claramente prejudicada. Curiosamente, ou não, um dos poucos brasileiros profissionais nessa modalidade é a nossa maior esperança de medalha no atletismo. Jadel Gregorio há quatro anos treina e mora na Inglaterra. Tem acompanhamento físico, técnico e psicológico. Assim, pulou 17,90m, quebrando o recorde sul-americano que pertencia a João do Pulo desde 1975.

Jadel é uma exceção. Grande parte de outros brasileiros vão às pistas, piscinas e tatames sabendo que não têm chances. Homens e mulheres que batalham diariamente na vida e no esporte. Felizes. Satisfeitos.  Estão nos Jogos Olímpicos, representam o Brasil. Sabem que não vão ganhar. Mas, e daí? Querem conhecer, aprender, quem sabe, surpreeender.

Sem incetivo, sem condições de treinamento, sem o mínimo de apoio, o Brasil tem 469 integrantes com índice olímpico. Porém, a velha máxima se faz outra vez: “quantidade não é qualidade”.

Desse número recorde de atletas brasileiros numa única edição de Jogos Olímpicos, somente 12 têm reais chances de ganhar uma medalha. A previsão é da PWHC, uma das maiores empresas prestadoras de serviços do mundo, especializada em consultoria e auditoria.

O estudo é baseado em desempenho anteriores nos Jogos Olímpicos de 1988 para cá, em índices de desenvolvimento de cada país, suas populações, produtividade, crescimento econômico e incentivo ao esporte. E é essa última parte que “nos quebra”.

Se o sr. Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, se vangloria tanto do alto número de atletas brasileiros, respondemos com outro dado. Somente 12% das escolas brasileiras possuem quadra poliesportiva. Um número ridículo. Afinal, se na escola, local onde a criança costuma ter seu primeiro contato com o esporte, não há onde praticar, como formaremos esportistas no futuro?

A grande mania do brasileiro: pensar no hoje. O amanhã é problema do próximo ministro ou presidente. Se há uma saída, uma possibilidade do panorama esportivo no Brasil mudar, os responsáveis são justamente os atletas amadores. Brasileiros que não vão correr somente em busca de uma quase impossível medalha. A partir de quinta-feira, eles vão correr atrás de dignidade.

Vou vibrar com uma medalha de ouro no futebol. Vou vibrar com uma medalha no vôlei. Mas, tenho certeza, ficarei ainda mais feliz com um inacreditável quinto lugar no boxe ou uma apresentação digna no 400m. Só dessa forma, só sendo notícia para que esses atletas sejam lembrados e respeitados. Assim, mudarem a história do esporte desse país.

Boa sorte aos que merecem.

¹ O termo Olimpíada foi criado para destacar a corrida na Grécia Antiga. Já o termo no plural, Olimpíadas, é como ficou conhecido o evento que reúne várias disputas simultâneas, com vários esportes. Resumindo, o “correto” é o mais usado pelos meios de comunicação: as Olimpíadas.

² Na dúvida, use Jogos Olímpicos.

Fred Fagundes

Segunda-feira, 4 de Agosto de 2008.

Pesquisas recentes apontam que o brasileiro lê em média menos de cinco livros por ano. Desses, quatro obras são indicadas pela escola e apenas uma é escolhida de forma espontânea. O universo da pesquisa divulgada pelo Instituto Pró-Livro foi de 172,7 milhões de pessoas, das quais 95,6 milhões foram consideradas leitoras. Contudo, mais da metade são estudantes que lêem obrigatoriamente as obras indicadas pela escola.

A leitura não pode ser vista como obrigação, mas sim como um hábito. Durante a faculdade trabalhei num projeto de incentivo à leitura entre universitários. É muito difícil alguém pegar gosto pelo livros depois da adolescência, mas alguns casos são de sucesso. Nesse processo de iniciação, claro, devemos evitar os grandes e mais complexos clássicos. A melhor forma de perder esse medo dos livros é explorando melhor um gênero que costuma agradar a maioria: humor.

Há vários e ótimos livros de humor. Leituras simples, leves e agradáveis. Talvez, sua porta de entrada para o mundo dos livros. Eis algumas sugestões:

Título: O Melhor Livro Sobre o Nada
Autor: Jerry Seinfeld
Editora: Frente/2001
Páginas: 160
Preço: R$ 20

Reproduz algumas historinhas e piadas que Seinfeld contava quando era um stand-up comedian. Politicamente incorreto, Seinfeld ironiza todas as minorias, inclusive os judeus. Ele é um gênio, e parte da genialidade está no postulado básico de saber rir de si mesmo.

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Título: Crônica da Selvageria Ocidental
Autor: David Coimbra
Editora: Zero Hora/2002
Páginas: 116
Preço: R$ 20

Ótima coletânea de 26 contos de David Coimbra publicados no jornal Zero Hora que desvendam saborosamente as paixões, os desejos, as traições e as vinganças de personagens que, não raras vezes, foram criados à imagem e semelhança de nós próprios. Editado durante a Copa do Mundo de 2002.

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Título: Comédias Para se Ler na Escola
Autor: Luis Fernando Veríssimo
Editora: Objetiva/2001
Páginas: 192
Preço: R$19,80

Segundo e um dos mais bem criticados livros da série Ver!ssimo, que relançou toda a obra do autor. A coletânea de crônicas escolhidas por Ana Maria Machado traz o universo das histórias e personagens do mestre Luis Fernando Veríssimo. Leitura agradabilíssima e de fácil digestão.

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Título: Fora de Órbita
Autor: Woody Allen
Editora: Agir/2007
Páginas: 224
Preço: R$27,90

Último livro do ator, escritor e cineasta Woody Allen. Allen apresenta, com seu talento, bom humor e criatividade característicos, uma primorosa coletânea que, segundo o autor, responde as questões mais profundas da existência humana e também tem o tamanho certo para calçar uma mesa.

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Título: Tudo e Mais uma Surpresa
Autor: Ray Romano
Editora: Frente/2001
Páginas: 185
Preço: R$19

Ray Romano, roteirista e protagonista de “Everybody Loves Raymond”, retrata de forma bem-humorada o cotidiano de sua família. Carrega um modelo de escrita que lembra muito o usado em blogs. Uma grata surpresa.

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Título: O Guia do Mochileiro das Galáxias
Autor: Douglas Adams
Editora: Sextante/2005
Páginas: 192
Preço: R$20

Um dos maiores clássicos da literatura de ficção científica. Mestre da sátira, Douglas Adams cria personagens inesquecíveis e situações mirabolantes para debochar da burocracia, dos políticos, da “alta cultura” e de diversas instituições atuais. Comece com esse e conheça o resto da série. Mas nem pense em ver o filme.

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Título: Brasileiros Pocotó: Reflexões Sobre a Mediocridade que Assola o Brasil
Autor: Luciano Pires
Editora: Panda/2004
Páginas: 151
Preço: R$26,90

Brasileiros Pocotó, com suas 151 páginas em linguagem simples e direta, cartoons bem humorados e temas atuais é uma reflexão bem humorada não somente sobre política, educação, economia, comportamento e principalmente, sobre a inocência (ou ignorância) do povo brasileiro ao aceitar o que lê, ouve ou assiste em horário nobre.

Leia. E, principalmente, divirta-se.

Fred Fagundes

Sexta-feira, 1 de Agosto de 2008.

Na semana onde comemoramos o primeiro título sul-americano de um clube gaúcho, voltei a refletir sobre a arte de ser zagueiro. O requisito básico, pode ter certeza, é ser feio. Observe os grandes zagueiros. Eram todos feios, muito feios. Atílio Genaro Ancheta talvez seja uma excessão, mas o que dizer de Hugo De Léon? De León é o símbolo máximos dos defensores. Barbudo, desengonçado, grosso e violento. Isso que é zagueiro. Não sabe nem ler o De Léon, até hoje.

Sabe quem também jogou muito na zaga? O Alicate. Não manja o Alicate, né? Pois eu vou dizer quem foi Alicate. Alicate foi o maior jogador que já passou pelos campos de várzea do Brasil. Carioca, foi injustiçado e nunca aceito nos times fluminenses. Um jogador que certamente seria ídolo no Rio Grande do Sul, região onde, no seu campeonato estadual, do pescoço para baixo tudo é canela. Jogo de homem é o futebol de lá, de homem.

Alicate tinha as pernas tortas, por isso a alcunha. Sempre preferiu o Rivarolla, achava o Gamarra muito metrosexual. Alicate não sorria. Nunca. Tinha um chute forte tratado como arma mortífera do nosso time. Quando a coisa estava feia, Alicate se mandava para o ataque. Ficava de costas para o gol como se fosse fazer o pivô, mas não tocava a bola. Apenas virava o corpo e soltava uma chicotada. “Ziiiiiiiiiu” fazia a esfera, colocando adversário, goleiro, juiz, tudo pra dentro do gol.

Alicate era zagueiro.

Num sábado qualquer, após nova vitória sobre o Uirapuru, realizávamos nosso tradicional ritual de comemoração no boteco da Beti. Tudo parecia normal até o relógio acusar a meia noite. Surge no respeitoso estabelecimento uma jovem. Mas não engane-se, não é uma jovem qualquer. É um jovem, baixa e de seios grandes. E você sabe como são as jovens baixas e de seio grandes: nefastas.

O que mais surpreendeu foi a atitude da jovem, baixa e de seios grandes. Os olhos dela miravam Alicate. Ela o desejava loucamente. Volta e meia ela olhava, sorria, olhava de novo, bebia e, no final, sempre sorria. Alicate viu. Eu vi. O Daniel Soares viu. Aquela era a noite do zagueiro.

Lembando que Alicate, pé frio em relacionamentos, nunca se deu bem com as mulheres. Normalmente era o Buricá, nosso meia esquerda, que tinha as melhores chances. Em campo nos colocava na cara do gol, fora dele matinha um excelente aproveitamento dentro da área. Alicate, não. Tanto que tal situação criou expectativa no time, pois viviamos uma novidade.

O zagueiro, no melhor estilo zagueiro, não quis perder a chance. Pensou como um matador. Um centroavante. Foi em direção à moça sem tropeçar e distribuindo cotoveladas em quem estivesse no seu caminho. Não houve tempo para cantadas, drinks ou coisas do tipo. Pegou-a pelo braço e disse:

- “Hoje tu és minha”.

Poucos minutos depois os dois já caminhavam, de mãos dadas, até a saída. A atmosfera do ambiente acusava o início de uma longa noite. No bar, festejávamos a vitória do time e brindávamos pela felicidade de Alicate. No carro, o zagueiro via que a festa estava apenas começando. No quarto de um motel vagabundo de BR, ela se fez.

Logo ao entrarem, a jovem, baixa e de seios grandes, tal como uma jovem, baixa e de seios grandes, atacou Alicate. Ele, meio assustado, não se fez de lateral direito (laterais direitos são péssimo com mulheres) e foi entrando no ritmo. Rapidamente já se via despido na cama com a nefasta jovem, baixa, de seios grandes e, agora, finalmente despidos.

Enquanto os dois já copulavam numa velocidade e intensidade frenética, Alicate foi absolutamente surpreendido. Num breve momento de insanidade sexual, inspirada pelo momentos e contrariando todas as leis do amor, da física, da robótica, da astronáutica, da matemática, da retórica e da gramática, a jovem, baixa e de seios grandes despidos disse:

- “Me xinga!”

E disse de novo. Silabicamente e em caixa alta:

- “ME XIN-GA!”

Alicate não sabia o que fazer. Não esperava aquela situação, não tinha ouvido falar de mulheres que gostavam de ser xingadas. Quem gostava de ser xingado? Como xingar alguém assim, do nada? Poxa, ele gostava dela. E não entendia dessas coisas. Era um cara tradicional, nem de preliminares ou camisinhas de hortelã curtia.

Quando a jovem, baixa e de seios grandes e despidos já perdia a paciência e gritava aos socos “me xinga, me xinga, me xinga”, Alicate, com a serenidade de um auxiliar técnico e inocência de um quarto árbitro, enfim, xingou:

- “Sua gorda!”

A respiração diminuiu. O nheco-nheco da cama parou. Agora, os únicos gemidos eram do filme vagabundo que passava na TV. A jovem, baixa e de seios grandes e despidos levantou-se, vestiu-se e, antes de chamar um taxi, simplesmente disse:

- “Seu zagueiro”.

Eis o problema de Alicate. Ele era zagueiro. Nunca será um amante. Nunca será um, tipo, meia esquerda.

Nunca será.

¹ Essa crônica foi postada originalmente no Xpock. Após uma breve tangerinada, é a vez de aparecer no QMaT.

² Agradeço meu camarada Luiz pela camiseta enviada. Valeu, bizonhento.

³ Uma luz para os blogueiros sedentários.

Fred Fagundes

Quarta-feira, 30 de Julho de 2008.

Nem só de coisas “legais” vivemos na década de 90. Momentos tristes e melancólicos ocorridos entraram, infelizmente, para os anais da TV brasileira. Por isso, fazemos hoje uma alteração extraordinária no título da série que vem listando os destaques da década passada. Relembramos a partir de agora, queiram ou não, os momentos mais marcantes da TV brasileira nos anos 90.

Inventar um assassinato nos últimos capítulos da novela costuma ser uma boa jogada. Você mata um personagem importante, enche a trama de suspeitos e pronto. É certeza de pico de audiência na última sexta-feira da trama. Agora, fazer isso desde a estréia - e bem - é para poucos. Ou para Silvio de Abreu.

Durante 203 capítulos, A Próxima Vítima foi tema de discussão em todos os cantos do país. Só se falava na novela e nos possíveis assassinos. O roteiro, muito bem desenhado, primava pela dúvida. O suspense não estava somente em descobrir quem era o assassino, mas também em quem seria “a próxima vítima”.

Com uma média geral de 52 pontos e pico de 70(!) no seu último capítulo, A Próxima Vítima foi também um grande sucesso em países como Portugal e Rússia. A cena do capítulo final - e a revelação do assassino - você assiste logo abaixo.

Observe que o José Wilker era homem. Disso eu não lembrava.

Independente de sua religião ou crença, foi impossível não ficar chocado com aquela cena. Sérgio Von Helder, pastor da Igreja Universal, chutava e socava uma imagem de Nossa Senhora Aparecida durante um programa da TV Record. Ele acusava a Igreja Católica de mercenária, por cobrar algo em torno de R$ 500 pela santa. Não pegou bem.

A atitude revoltou milhares de católicos e, principalmente, evangélicos. Afinal, a discriminação, que já era grande, tinha tudo para aumentar devido a atitude irresponsável do pastor. E foi justamente o que aconteceu. Até hoje o fato é lembrado como um símbolo de intolerância.

Nove anos depois, um boato sobre a conversão do bispo gerou polêmica. A estória foi desmentida após uma reportagem da Istoé revelando que Von Helder trabalha no escritório da Universal, em Nova York, seguindo ordens de Edir Macedo.

Update: o Youtube retirou o vídeo do ar.

Desde a morte de Tancredo Neves, em 1985, o Brasil não via uma comoção daquele tamanho. A queda do avião que levava os Mamonas Assassinas, em dois de março de 1996, foi o mais trágico e assustador acidente da decada de 90. Ídolos nacionais, o jovens deixaram um dos discos mais vendidos na história do mercado fonográfico brasileiro. E uma legião enorme de fãs.

As cenas exibidas dois dias após o acidente, com então exclusividade na TV Globo, foram emocionantes. Os integrantes do grupo brincam com um suposto defeito no avião. Ironicamente, o tecladista Julio Rasec diz que o avião vai cair. Tudo isso seguido de um depoimento primoroso do jornalista Arnaldo Jabor.

Foi de arrepiar.

A história de Fernando de Collor de Mello não é das mais puras. Desde seus aliados até suas armações, há dezenas de fatos, teorias e, principalmente, provas de corrupção e atitudes suspeitas. O pedido de abertura do histórico processo de impeachment foi aprovado em 29 de setembro por 441 votos a favor. Somente 38 votaram contra.

A votação foi transmitida por grande parte dos meios de comunicação, já que todos (inclusive a Rede Globo) haviam abandonado definitivamente Collor. Cada voto positivo merecia vibração só comparável com as da Copa do Mundo. Parecia a reação de um gol. Um título.

E era.

Vou “suitar” o primeiro post da série.

Para os que nasceram na metada dos anos 80, a Copa do Mundo nos Estados Unidos foi a primeira. Poucos lembravam de 1990 - felizmente. Vivi intensamente os meses de junho e julho de 1994 e digo com autoridade: assisti todos as partidas daquele mundial. Eu começava a ficar doente por futebol graças a Copa. Graças a Deus.

O dia que mais me marcou foi a véspera da final. Em Los Angeles, os três tenores - Plácido Domingo e José Carreras e Luciano Pavarotti - fizeram uma apresentação. Na sala de casa, com meu pai, dormi assistindo o show na impecável imagem da TV, fruto de horas de esforço do velho, espetos de churrasco e esponja de aço na antena. Tudo para no outro dia, após o tradicional almoço de domingo, a família inteira pudesse ver a final.

Porém, o realmente inesquecível foi a decisão por pênaltis. O socos no ar de Dunga, a defesa do Taffarel, a gravata torta de um esguelado Galvão Bueno…

Que dia.

O bate boca do então candidato à Presidência da República Oreste Quecia com o jornalista Rui Xavier, da Folha de S. Paulo, foi umas das coisas mais surreais e engraçadas envolvendo política nos anos 90. Aconteceu no programa Roda Viva, da TV Cultura, durante uma série de entrevistas com os candidatos. Foi lindo.

E o saldo final: caluniador (16 vezes); Mentiroso (15 vezes); Mentira (11 vezes); Safado (10 vezes); Canalha (9 vezes) e Malandro (7 vezes).

GP de Imola. 1994. Sétima volta. Tamburello.

Sem mais.

Conheça as outras edições da série As 7 coisas mais legais dos anos 90: propagandas; infância; games, brinquedos e séries.

Fred Fagundes

  • Já fui office boy, operador de CPD, diagramador de jornal e estagiário em emissora de TV. Na faculdade fiz um documentário, dois zines e professores chorarem. Considero futebol cultura. E De León melhor que Figueroa. Maragato, 23 anos e um poço de sinceridade.