A feia. A recatada. A moça que se veste como se vivesse num país comunista imaginado por americanos em 1967. Toda cidade tem a sua. Em Passadeiro, interior da Bahia, ela atendia por Cecília. Apesar do nome, digamos, sensual, Cecília era tão excitante quanto uma, digamos, pia de banheiro.
Magra, alta e desengonçada, Cecília passava maior parte do dia no trabalho. Era radialista, tinha uma voz aveludada, leve, doce e serena como os primeiros raios de sol. Apresentava o jornal da manhã e do final de tarde na única emissora de Passadeiro. Seu sonho era trabalhar na TV, mas era feia, muito feia. E pessoas feias ou trabalham em rádios ou viram pro-bloggers.
Havia tentado também um emprego de assessora de imprensa do Atlético, time amador de Passadeiro. Desistiu minutos antes da entrevista. Ao chegar no clube, viu que um grupo de jogadores imitava o seu modo estranho de caminhar. E riam. Riam e olhavam com menosprezo para Cecília. Ela odiava isso.
Mas não era a primeira vez. Cecília foi motivo de chacota desde o ensino fundamental. Nunca mudou seu estilo, parecia usar a mesma armação de óculos a vida inteira. E as roupas, bem, as roupas eram costuradas por ela mesmo. Saias longas, muito longas e blusas com botões enormes e repletas de babados. Provavelmente usava também uma enorme calcinha bége. Era de arrepiar. Era uma vasectomia ambulante.
Cecília não namorava. Não tinha amigos. Um desastre de vida, um desastre.
Cansada da mesmice e do nada, Cecília decidiu procurar uma vida nova em Salvador. Cidade grande, muitas oportunidades e muitas pessoas. Não perderiam tempo reparando e falando mal de seu estilo, como era em Passadeiro. Tinha 20 anos, os novos 10. Queria estudar, aprender, conhecer pessoas, lugares, ouvir sons, ver filmes, adquirir uma cultura que nunca teria conhecimento no interior.
Graças ao trabalho na rádio, conseguiu estágio numa revista de entretenimento. Demorou poucos meses até ser convidada para a reportagem. Durante três anos foi reporter de TV e música. Estudou, aprendeu, conheceu pessoas, lugares, ouviu sons, viu filmes e adquiriu aquilo tudo que queria e foi citado no final do parágrafo anterior.
Tirou férias. A segunda, na primeira, no ano interior, ela fez um tour por 13 paises da Europa. Dessa vez, queria algo mais tranquilo. Decidiu visitar Passadeiro. Estava com saudades da família, só, pois nada o prenderia naquele muquifo. Passaria lá o mês de março inteiro. Março, inclusive, que é o mês em que ocorre a Copa Berimbau, competição tradicional que reunia os menores times do interior baiano.
As coisas começavam a ter um sentido.

“Como ela mudou assim, de ontem pra hoje”? O questionamento da população passadense mostrava como Cecília era ignorada no município. Mesmo três anos morando longe, era de desconhecimento geral que ela havia deixado Passadeiro. As mulheres, que até ontem eram belas, hoje não passam de bonitinhas. Cecília elevou o padrão de beleza de Passadeiro. Sua chegada foi triunfal, ah, foi.
Chegou dirigindo um conversivel vermelho. Ao deixar o carro, benzadeus. Perna, perna, perna, perna, a perna da mulher não acabava. Finalmente, Cecília. Linda. Fogosa. Balançou os cabelos louros em câmera lenta. O único semáforo de Passadeira deu tilt, alarmes de carros dispararam e sorvetes num raio de 20 metros derreteram.
A notícia de sua volta chegou até a concentração do Atlético, que se preparava para a estréia na Copa Berimbau. Aliás, um baita time o daquele ano. Campeão invicto da terceirona do estadual, era o melhor plantel dos últimos 10 anos e o favorito ao título
O atacante Nenéca lembrou que foi vizinho de Cecília e sabia onde a família dela morava. Aguçado pela sua curiosidade, pulou o muro da concentração e foi até a residência. Chegando lá, encontrou o portão encostado. Entrou. Três passos depois, uma janela aberta. Ao aproximar-se, viu Cecília. Ela estava deitada no sofá de lingerie vermelha e um cigarro entre os dedos médio e anelar.
- “Eu esperava um de vocês”, disse, antes de tragar. “Entra”, completou.
Nenéca e Cecília fizeram sexo durante uma noite inteira. O jogador só voltou, exausto, na manhã seguinte para a concentração. Dormiu até pouco antes do jogo. Sentia-se recuperado. No caminho até o estádio revelou as últimas paralavras de Cecília: “conta pros teus amigos. Eu vou esperar eles”. Jurou, Nenéca. Jurou que ela disse aquilo.
“Ela é uma santa, é uma santa”, vibravam os atletas.
A partida começou no horário previsto. Nenéca, atacante, era a maior esperança de gols do Atlético. Havia mostrado um bom trabalho e desempenho nos treinos. E ainda estava, mais do que nunca, animadíssimo. A primeira bola recebida por Neneca foi aos 3 minutos. Ele tentou um drible, pisou na bola, e caiu de bunda. Lance ridículo. Mais ridículo seria o seguinte, quando ele chutou o chão e quase se lesionou.
Nenéca estava irreconhecível. Foi substituído pouco antes do final do primeiro tempo. Perdeu a vaga no time. Nunca mais foi titular. Nunca mais fez um gol.

A cerimônia se repetiu na véspera da partida seguinte. O jogador da vez era o Flávio Bicudo, béque tipo becão mesmo. Anotou o endereço da felicidade e foi-se, todo faceiro. A situação era a mesma relatada por Nenéca. Portão encostado e uma janela aberta. Dentro da casa, Cecília o esperava apenas com o perfume em seu corpo. Noite feliz, noite feliz…
Bicudo era capitão daquele time. Era popular por sua sorte, jamais havia perdido um cara e coroa, jamais. No dia seguinte, já no jogo, a moeda arremessado com o dedão pelo árbitro subiu, o sol atrapalhou a visão de Bicudo e caiu no olho do jogador. Acabou substituído antes do apito inicial. Fez uma cirurgia, mesmo assim perdeu parte da visão. Deixou o futebol. A sorte, enfim, o abandonaria.
Uns seis dias depois foi a vez do Pepeu, meia direita. Foi para a cama com Cecília, aquela loucura. No dia do jogo torceu o tornozelo saindo do vestiário. Benfica, o goleiro de quase dois metros. Chegou na concentração fumando um cigarrinho. No jogo, deu com a cabeça na trave e sofreu traumatismo craniano.
A coincidência começava a levantar suspeitas. Todo jogador que dormia com Cecília sofria, de uma forma ou outra, dentro de campo. Alguns não superticiosos discordavam. O Greco, por exemplo. Era banco, nunca entrava. O time preferia jogar com 10 do que escalá-lo. Decidiu passar a noite com Cecília. Passou. Na tarde seguinte, um raio caiu no banco de reservas e levou Greco ao coma. Somente ele, os outros nada sofreram.
O recado, enfim, era compreendido. Cecília tinha uma maldição entre as pernas. Vingança, isso que ela desejava, isso que a fez voltar para Passadeiro. As mulheres são assim. Para elas, não basta ser a melhor. A honra e orgulho recuperados de um passado negro podem ser mais relevantes que um presente digno. Cecília adorava isso. Ela se vingou dos que à ofenderam um dia, um por um.
E os jogadores aprenderam. De nada adianta ter talento. Não só no futebol, mas é imprescindível ter humildade. É imprescindível saber respeitar as mulheres.
Principalmente se ela for uma bruxa. ![]()
Fred Fagundes











Quinta-feira, 24 de Julho de 2008. às 11:58 pm
Uhuuuuuuuuuuuuuul, torcendo pra Cecilia!
Quem já foi muito feia sabe como é sofrido…
\o/
Sexta-feira, 25 de Julho de 2008. às 12:56 am
Essa Cecília é o Capeta cara!
Se vingou de um por um, deu um jeito de mostrar que não é mulher de ser zoada.
Falou, abraços!
Sexta-feira, 25 de Julho de 2008. às 1:08 am
eu ia dizer “por isso trato as mulheres bem”, mas recebi no msn:
..nao diga a Deus que voce tem um grande ploblema..diga ao seu ploblema que voce tem um grande Deus.. diz:
..nao diga a Deus que voce tem um grande ploblema..diga ao seu ploblema que voce tem um grande Deus.. diz:
nao é isso é que vcs se acham melhor que nós mas no fundo sao pobre querendo tirar pra play boy mas como ja conheçemos nao damos muita moral pq pra nos nao fede e nao cheira
(F)Crazy (ô\_!_/ô) Diamond - Carpe Noctem, seize the night! diz:
olooocoo….
..nao diga a Deus que voce tem um grande ploblema..diga ao seu ploblema que voce tem um grande Deus.. diz:
to falando serio
..nao diga a Deus que voce tem um grande ploblema..diga ao seu ploblema que voce tem um grande Deus.. diz:
na beudura vcs nos conheçe mas quando estao normal nos tratam como animal como fossem muita merda
é, to fudido.
Sexta-feira, 25 de Julho de 2008. às 2:21 am
Fred, independente do que vc escreva (vou loer com muita calma). o Nosso gremio deu um passeio, um vareio mesmo no Figal. Complete esse álbum.
Sexta-feira, 25 de Julho de 2008. às 7:14 am
muito bom, e falando em texto de vingança de mulher, tu q eh gaucho deve saber quem é o david coimbra, olha no blog dele no clicrbs tem um texto de uns 11 capitulo muito bom, axo q o nome é ” a loira” alguma coisa assim, flw
tricolor rumo ao titulo
Sexta-feira, 25 de Julho de 2008. às 10:52 am
Ótimo texto! E coitado dos jogadores! ahuuhauha
Sexta-feira, 25 de Julho de 2008. às 10:57 am
esse texto é 10% David Coimbra, 60% Tieta do Agreste e 30% o filme Teeth, de Mitchell Lichtenstein.
Estou certo ou errado, Fagundes?
Sexta-feira, 25 de Julho de 2008. às 12:12 pm
10% David e 60% Tieta, sim (Ela não era do Ceará?) Mas, o filme eu não vi ainda…
Sexta-feira, 25 de Julho de 2008. às 12:47 pm
hihihihihihihihihihihihihi, ótimo!!!!
Apareça Fredinho…..
;D
Sexta-feira, 25 de Julho de 2008. às 12:52 pm
Muito bom!
Dá-lhe Cecilia!!!!!!!!
Esse blog tah cada vez melhor!
Parabéns!
Sexta-feira, 25 de Julho de 2008. às 12:55 pm
Que mané Ceará, Evandro! Sant’Anna do Agreste, isso mesmo.
Abraço!
Sexta-feira, 25 de Julho de 2008. às 12:58 pm
Nunca provoque a irá de uma mulher, por que quando uma mulher decide se vingar, ela o faz, e bem feito.
Sexta-feira, 25 de Julho de 2008. às 1:09 pm
Aí é bruuuuuuuuuuta…
Essas historias ficam cada dia melhores…
Sexta-feira, 25 de Julho de 2008. às 1:22 pm
SENSACIONAL!!! PARABÉNS!!!
E dalhe gr~emio, 7 a 1!!!!!!!
Primeirão do brasileiro!!!
Sexta-feira, 25 de Julho de 2008. às 4:38 pm
Fred, independente do que vc escreva (vou loer com muita calma). o Nosso gremio deu um passeio, um vareio mesmo no Figal. Complete esse álbum.
[2]
Sexta-feira, 25 de Julho de 2008. às 4:44 pm
Porra velho!
Blog é Massa e talz.
Mas pelo amor de Deus, Escreve um livro logo, crônicas, fatos, foda-se o assunto, tu é foda demais pra ganhar a vida somente com um blog.
e lembre-se oque Zé Geraldo canta na música “milho aos pombos” de que quem bate as asas mais alto voa como um gavião.
Sexta-feira, 25 de Julho de 2008. às 9:16 pm
Fred, já é o 2º post que tem mulheres más atacando jogadores de futebol. Se eu fosse você, me preparava, pois as feministas atualmente devem adorar você!
Sábado, 26 de Julho de 2008. às 9:27 am
Com a onda de azar que eu tô tendo, acho que tem alguma Cecília rondando perto de mim.
Sábado, 26 de Julho de 2008. às 2:52 pm
Muito boa a história. =D
Domingo, 27 de Julho de 2008. às 7:56 am
mulheres…
nunca pegarei nenhuma Cecília.
Domingo, 27 de Julho de 2008. às 2:15 pm
.
.
Parabéns em Fred, um dos melhores posts até hoje… ainda mais pra mim que namoro uma bruxa de verdade o-O! sério!… a bruxinha mais linda do mundo
.
.
Domingo, 27 de Julho de 2008. às 5:29 pm
Cara, tu é genial! adoro tuas histórias, um dos poucos blogs que me deixa muito tempo parada na frente da tela do pc, tá de parabéns! Amei o dossiê do Forrest Gump também!
Quarta-feira, 30 de Julho de 2008. às 9:30 am
Muito bom o texto!!!!1
Quase um King o rapaz!
Quarta-feira, 30 de Julho de 2008. às 7:42 pm
Ótima a história Fred, é ótimo ver quando pessoas(homens) que nos esnobavam no passado hoje nos desejam!!!