Tem coisa pior que encontrar um conhecido e não saber se ele lembra de você? Tem. O conhecido lembrar de você mas desconfiar que você não. Volta e meia o ser humano encontra-se nesse inevitável paradoxo de sua existência. Os minutos seguintes ao encontro costumam ser absurdamente constrangedores. Eu sei como é.

Meses faziam desde meu último ”passeio” de ônibus. Hoje fui obrigado a andar de coletivo devido uma pequena emergência. Subi no veículo e assustei com o preço da passagem: R$ 2,05. Era R$ 1,70 no meu tempo. Ao passar pela roleta, dar dois passos e seguir até o fundo, surpresa. Uma antiga colega de escola estava sentada no último banco. E agora? Ela lembra de mim?

Não pude evitar de perceber: como ela envelheceu. Estava meio cheinha, rosto cansado, pele ruim. Chegou a me olhar de canto umas três vezes, mas evitou qualquer reação que acusasse um cumprimento. Como era mesmo o nome dela? Mônica, isso mesmo. Devia eu tomar a iniciativa? Problema: não lembro se fui uma ilusão amorosa para ela no colegial.

Ah, eu era bonitão. Jogava bola, era esperto, o mais engraçado da sala. As meninas adoravam. Talvez ela fosse apaixonada por mim e eu nunca percebi. Tadinha, a fiz sofrer. Melhor não puxar papo. Será? Quem sabe ela quer conversar para passar o tempo, daqui até o ponto final tem chão. Não, se quisesse mesmo já teria feito. Vai ver ela nem lembra de mim. Impossível, eu fui o amor da vida dela. Ela deve ter raiva de mim. Se brincar ela é a moderadora da comunidade “Eu amei Fred Fagundes. Aquele cachorro”. Cruzes.

Eu gostava dela, era boa de papo. Conversamos bastante na quinta série. Assuntos de quinta série, seja lá quais eram, não lembro. Só lembro que ela tinha um cheiro gostoso de maçã. E também era a única que usava grafite 0.7, eu vivia pegando emprestado. Ah, a Mônica… Como era bom rir dos outros com ela. Eu já falei do cheiro de maçã? Era de torta de marçã, mas não do Mcdonalds, era mais do tipo caseira.

Ela não pára de me olhar, ela lembra de mim. Talvez eu devesse pelo menos dar um oi. Relembrar, a convidar para tomar um café. Quem sabe da próxima vez, meu ponto é esse.

Pára tudo. Pára, pára, pára tudo. É o Fagundes? Meu deus, ele tá calvo. Não, pior, ele tá careca. Careca é a 2ª divisão do calvo, a conexão discada do calvo, a CCE do calvo. Como ele engordou. E não cresceu, olha… Ele tá vindo. E agora? Duvido lembrar de mim. Ele era dislexico, coisa assim. Ele parou. Isso, fica aí, não senta.

Ele parece triste. Sem aliança. Solteiro. Coitado, sempre foi sozinho. No colégio já não era popular, conquistava ninguém. Pra piorar, era reserva daquele time ridículo. Se achava humorista. Nossa, como ele era insuportável. As meninas viviam falando mal dele. Eu, nunca. Achava um exagero com o menino que já sofria tanto.

Sentava sempre ao meu lado. Era doidinho por mim. Quebrava os grafites daquela lapiseira do Darth Vader de propósito só pra puxar papo comigo. Tolinho, nunca fui na dele. Era preciso mais que aqueles olhos verdes lindos para me conquistar. Hum, continuam verdes. Gostei da barba por fazer, pelo menos o visual tá razoável agora.

Eu sentia pena, acho que por isso passava a aula conversando com ele. Adorava quando elogiava o meu perfume, mesmo nunca ter sentido o tal “cheiro de bolo de laranja”. As imitações dos professores também eram ótimas, todos adoravam. Até aquela vaca da Renata que saiu com ele. Será que ele lembra dessa história?

Ah, porque não um “oi”? Só pra recordar. Ele não pára de me olhar. Que pena. Ele desceu. Esteve tão perto de ser feliz. Me desperdiçou. Espero que sobreviva.

Boa sorte, Fagundes.

¹ Recebi hoje uma bela coleção de camisetas Milkie. Presente do amigo Daniel Cajal. Espero não ter sido de Dia dos Namorados.

² A Kaká pede seu voto :)

³ Realmente não cresci (muito) e nem casei (ainda). Mas também não fiquei careca. Talvez calvo. Sorte minha ter louca pra tudo

Fred Fagundes

35 Comentários para “Lost in Translation”

  1. Comentário de: Colombina'Bibi

    Bah, ameiiiii a crônica. (crônica? enfim! há).
    Acho que essa dúvida acontece com todo mundo :P Mais eu sempre dou um ‘oi’ de longe, pra nao ficar feio.
    O pior é quando a pessoa vem falar contigo, e tu não lembra de jeito nenhum dela… ela pergunta da familia, amigos. Cada saia justa.

    Adoro o que tu escreve… E voces formam um casal super lindo! Tudo de bom.

    Beijones Fred. =}

  2. Comentário de: Dorly Neto

    Seus textos sempre me prendem a atenção cara, você escreve bem pra caramba!

    Não esperava uma resposta da Mônica abaixo da foto, ficou bem inteligente, coisa de roteiro de curta-metragem.

    Por que não transforma isso em curta-metragem? Ia ser realmente f***!

    Abraços!

  3. Comentário de: Carol

    aaaaaaaaaaah eu adoro esse filme!!!!

    Adorei esse texto, ficou mto bom!

  4. Comentário de: Igor Massami

    O.O muito bom seus textos, estou adorando o blog já o acompanhava no JB.
    esse post realmente muito bom! tb não esperava o “pensamento” dela no final =D

  5. Comentário de: diego_l88

    mto bommm

    parabéns!

  6. Comentário de: Bakudan

    hoooot apple pie, ein ein ein, sei como é que é.
    abras,

  7. Comentário de: Karla Mariano

    Nossa, me surpreendi com seu texto. e lindo casal heimm!!!!

  8. Comentário de: Thiago Monteiro

    Meu velho, aqui em Salvador chamamos ônibus de BUZU e a coisa mais fácil de acontecer é encontrar alguém “conhecido”. No meu caso, o problema é bem diferente, não lembrar das pessoas que falam comigo. Algumas vezes lembro da fisionomia, a pessoa fala comigo, mas o nome… esse é difícil de lembrar! Abraços e parabéns pelo novo blog.

  9. Comentário de: Daniel Felipe

    Muito bom o texto cara!
    Parabens, escreve mto bem

  10. Comentário de: Gracielle Galvão

    Esse menino é bom nisso…

    Ai ai, quanto orgulho eu tenho! =))

  11. Comentário de: Linkblog Pensar Enlouquece, Pense Nisso.

    Leituras recomendadas…

    Lost in Translation, em Quem Matou a Tangerina?.

    Coisas que Fluem, em Liberal Libertário Libertino.

    Em busca do sinal perdido, em Techbits.

    Fausto Silva apresenta Goethe, em Pura Goiaba.

    A Banalização das Coisas, em Blosque.com.

    Seç…

  12. Comentário de: Hilana

    Não tem como não gostar do que vc escreve. =]
    by the way, o JB ficou mt chato depois que vc saiu.

    bjsss

  13. Comentário de: Karla Marianno

    Muitooooooo chatuuuu, JB sem fred…..

  14. Comentário de: Jonathan

    Muito bom, seus textos são sempre ótimos.
    Parabéns pelo blog

  15. Comentário de: Daniel Cajal

    Ahhh, droga!
    Na verdade era pra ter chegado dia 12…
    Gostou dos bombons?
    Larga dela e vem pra mim!

  16. Comentário de: Carol

    Por que você colocou link para o Sobre do meu blog?! Medo de você criatura…

  17. Comentário de: Eduardo

    Parabéns pelo blog Fred, já curtia no JB, depois que vc separou e casou com o Chorão, eu passei a frequentar mais aquela pocilga (rsrsrsr brincaderin), e agora passei a vir aqui tb.

    PS: O que tá havendo com o blog do DJ ??

  18. Comentário de: Kel Ribeiro

    Adorei o texto, como sempre ótimo!
    Beijos

  19. Comentário de: Leda Croft

    Amei o texto….

  20. Comentário de: Jonas Pereira

    Cara… quando entrei aqui no blog pela primeira vez pensei, putz… só tem texto, e textos longos =(

    mas vc escreve mto bem, gosto dos seus textos e mesmo sendo textos longos, nos prendem a atenção até o fim…

    parabéns

  21. Comentário de: Diego

    Muito bom esse texto! Realmente é uma situação estranha quando acontece, ainda mais para mim que sou péssimo em decorar rostos! hehehe! Abraço!!

  22. Comentário de: Marina

    Fred, não sei o que dizer a não ser: FANTÁSTICO!
    Ficou surpreendente o final!
    Parabéns!

    (enfim, comentei hehehehe)

    Bjão

  23. Comentário de: Caius

    Muito legal o texto cara!

    Isso tá muito legal, talvez vc devesse se focar um pouco mais neste tipo de post…

    Falow!

  24. Comentário de: Marcela

    texto perfeito
    =D
    parabéns!

  25. Comentário de: katikuta

    Caraca… quem ainda nao passou por isso, rs… :-***

  26. Comentário de: Bruno warol

    Cara,

    Mais uma vez perfeito!!! Você devia ter começado com essa idéia do tangerina a mais tempo…

    Parabéns!

  27. Comentário de: asuperkate

    Eu adoro quando vc faz isso!

    bjo!

  28. Comentário de: Cab

    hahahaha, e todos esses pensamentos em alguns poucos olhares, eu hein… Um “oi, tudo bom?” não custa nada… Mesmo que seja acompanhado daquela falta de assunto constrangedora. Sou expert nisso (na parte constrangedora, digo… =P).

  29. Comentário de: gabi

    sensacional o texto! parabéns!

    :D

  30. Comentário de: Filipe

    Ok, deixa eu explicar.
    Conheci seu blog hoje, nem lembro mais como cheguei aqui. Passei o olho sem ler nada e assinei o feed só porque adorei o nome do blog e o layout (muito foda, a propósito).

    Acompanho vários blogs no Google Reader, passei alguns de seus posts sem ler, porque tinha uma penca de coisa atrasada (devia ter uns 1.000 posts só na categoria em que inclui).

    Mas eis que, passando rapidinho, vi a foto do ‘Lost in Translation’ e resolvi voltar.

    Sorte a minha você ter ilustrado a história com esta foto, porque senão eu teria passado batido por esta incrível história.

    Cara, mandou muito bem! Sério, está muito boa a cronica!

    Virei fã do blog só por isso! hehhehe

    Abraço!

  31. Comentário de: juliana cruz

    muito bom.

    vc conhece a angela [do enloucrescendo]?

  32. Comentário de: juliana cruz

    opa…nomes duplicados. blog errado. sorry. rs

  33. Comentário de: soma

    cubo soma…

    soma without prescription…

  34. Comentário de: Everton

    krambaa!
    massa demais.
    Parece com um dos meus textos!

    ADOREI.
    =)

  35. Comentário de: tramadol

    tramadol…

    tramadol prescription. tramadol online. tramadol. cheap tramadol. what is tramadol. tramadol hydrochloride. …

Deixe seu Comentário

  • Já fui office boy, operador de CPD, diagramador de jornal e estagiário em emissora de TV. Na faculdade fiz um documentário, dois zines e professores chorarem. Considero futebol cultura. E De León melhor que Figueroa. Maragato, 23 anos e um poço de sinceridade.